quinta-feira, 31 de março de 2022

Rotina

 Levantar. Não poder sair. Deitar. Repetir. Todos os dias iguais. Repetir. Notícia: rio corre limpo pela primeira vez em mais de cem anos. Quer ser rio. Não pode correr. Levanta. Abre a janela. Vê um beija-flor. Sai no quintal. Beijos do sol. Carícias do luar. Acordei. Nenhum dia é igual. Repeti.

Objetos

 Objetos pente, tapete, almofada


Guarda a escova de dentes e com o pente desembaraça seus cabelos molhados do banho recém tomado.
O sol de fim de tarde entra pela janela e se espalha pela casa toda.
Tons dourados preenchem o ambiente e o fazem parecer um palácio de sultão
No chão almofadas sobre o tapete, perfume de massala quase sumindo no ar
Ele deitado estende a mão, um convite
Ela aceita e deita ao seu lado ainda enrolada na toalha
Tudo reluz
Contemplação

Pés de Amora

 O terreno de pés de amora era parada certa na volta da escola.

A cerca, mais apoio que proteção, enfeitada pelas amoreiras em retribuição.
Todos florescendo
Plena primavera
Cavernas de arbustos
Casinhas-pés-de-amora
Morada da nossa amizade
Dentro, tardes quase inteiras colhendo frutas da época
Sabor doce-azedinho de finda infância embalados pelo pop rock batucado em fichários-pandeiros rodando na ponta dos dedos
Jeito moleque 
Sorriso maroto
Turma do pagode, literalmente
Tribalistas 
Desfrutando da alegria pueril e ingênua de ser jovem

Teus Olhos

Teus olhos 

Navegam como barco

Nas curvas do meu corpo
Inebriados
Brilham como noite estrelada
Onde a lua cheia
Sai das águas 
E passeia na areia
De minha pele
Ondas vão e vem
Em cadência lenta
Embaladas
No som do blues
No tom marítimo
Silhuetas dançam
No ritmo
Do mar 
O amor

Se Essa Rua Fosse Minha - Diálogo

 Se essa rua fosse minha

Não deixava asfaltar
Asfalto não é coisa boa
E isso posso provar 
Pavimentação é quente
Nos buracos cabe gente
E não deixa água passar 

Se acaso de asfalto 
Realmente precisasse 
Botava um asfalto bom
Que nunca se esburacasse
Um material ecológico
Porque é bem menos tóxico
Que a água ele drenasse 

Pra não ter ilha de calor
Pintaria ele de branco
Pra aproveitar o frescor
E a gente sentar uns bancos
Muita árvore e gramado
Pois lugar arborizado
Se chove não desce o barranco 

E a lei Renata Souza
Aqui seria cumprida
E na forma de poesia
Ela estaria imprimida
Em meio às artes da praça
Flor, artesanato e graça
Pra ficar bem conhecida 

Na rua teria pomar
E horta comunitária
Pra todos alimentar 
Quase uma reforma agrária
Na abundância de alimento
Ninguém em nenhum momento
Faria refeição precária 

Se essa rua fosse minha
Não teria muro na escola
Pois lugar de aprendizado
Não precisa ser gaiola
Aprender é liberdade
Testar possibilidades
Menos que isso é esmola 

Se essa rua fosse minha
Não haveria mendigo
Qualquer um que aqui parasse
Encontraria abrigo
Vida com dignidade
E na plena amizade
Ia ser costume antigo 

Quem gostar da minha rua
Não achar coisa de louco
Traga ela à realidade
Transformando pouco a pouco
A sua própria existência
Fazendo dela vivência
Com partilha e amor de troco.

Poesia Escrita

 Poesia escrita

É transcrever
Em palavras
A beleza da vida

Poema eleva
o poder
transformador
e faz uma coisa
em outra coisa mais bela

Poesia é arte
obra prima
aquarela
em si reparte
branca
rima
papel
tela

poesia é afeto
de palavras
tece amor
acaricia
em versos
prosa
pássaro
pedra
e flor

Menina, Moleca

 Menina

Moleca
Moça
Sapeca
Tem jeito de santa
Trejeito que peca
Tem um par de asas
De flor sua casa
E uma bicicleta

Menina 
Moleca 
Moça 
Sapeca 
Voa
Anda
Pedala 
Pousa
Para 
Breca 
A cor dá ao sol, levanta
Acorda essa soneca

Menina 
Moleca
Moça 
Guerreira 
De encanto
Arco e flecha
Espanto e
Fogueira
Transmuta em amor
Fogo de beija-flor
Transforma em amoreira

Menina
calor de sol
queima ao luar

Moleca 
Corpo 
nascente 
de ri/s/o 
solar

Moça
Colar
Corrente 
que flui
para o a.mar

Sapeca
Cor de mel o dia
Vibra de alegria 
Vida que o amor dá

Rotina

 Levantar. Não poder sair. Deitar. Repetir. Todos os dias iguais. Repetir. Notícia: rio corre limpo pela primeira vez em mais de cem anos. Q...